Afrodite: a história da deusa da beleza e do amor
Do Homem ao Divino é um portal de conhecimento e revelações profundas sobre os grandes mistérios da humanidade. Aqui exploramos deuses ancestrais, mitos que podem ser verdades, livros apócrifos e proibidos, e as possíveis origens divinas ou cósmicas da criação. Do barro ao espírito, da terra as estrelas, mergulhe com a gente em uma jornada que desafia as versões oficiais da história. Se você busca respostas além da Bíblia, além da ciência e além do visível... este é o seu lugar.
Por que o mundo é como é? Por que a ordem e o caos parecem caminhar lado a lado desde sempre?
Para o povo Dogon, do Mali, essas perguntas não são meras abstrações filosóficas — elas são respondidas por uma história ancestral que atravessa gerações.
No centro dessa narrativa estão duas figuras fundamentais: Amma, o princípio criador, e Yurugu (também chamado de Ogo), a entidade da incompletude e da desordem.
Longe de serem apenas personagens simbólicos, eles representam forças reais e atuantes na construção e no funcionamento do universo.
A tradição Dogon não apresenta uma visão maniqueísta do mundo.
Em vez disso, oferece uma leitura complexa, onde o desequilíbrio não é um erro, mas uma parte inevitável do processo cósmico.
Este artigo mergulha na história de Amma e Yurugu, explorando suas ações, consequências e o que elas revelam sobre a visão Dogon da existência.
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| Segundo os Dogon, Yurugu vagaria eternamente pelo cosmos em busca da metade que perdeu ao desafiar a ordem divina. |
Antes de qualquer forma, havia o Ginnun, o vazio absoluto.
Nenhuma luz, nenhum som, nenhuma matéria.
Foi nesse espaço que Amma surgiu — não como um ser com forma humana, mas como a totalidade da potência criadora.
Amma não foi criado; ele simplesmente existia. A partir de si mesmo, iniciou a organização do universo.
O primeiro passo foi moldar a Terra, concebida como um ser feminino.
Mas a criação não seguiu um caminho linear.
Amma tentou fertilizar a Terra para gerar a vida, mas essa união foi interrompida por Yurugu, que agiu antes do tempo, desrespeitando a ordem natural do processo.
Essa interferência gerou uma criação incompleta, marcada por falhas e desequilíbrios.
Amma, então, decidiu reiniciar a criação, desta vez com mais rigor, estabelecendo leis cósmicas e criando os Nommo, seres gêmeos que simbolizam a restauração da harmonia.
A história Dogon não apresenta um criador infalível, mas sim uma força que aprende, corrige e insiste em restaurar o equilíbrio.
Isso levanta uma questão incômoda: e se o caos não for um erro, mas uma etapa necessária?
Yurugu não é um vilão no sentido tradicional.
Ele é o resultado de uma ação precipitada, de uma tentativa de existir por conta própria antes do tempo.
Segundo os relatos Dogon, Yurugu nasceu da Terra, mas se recusou a esperar a conclusão do processo criativo de Amma.
Ao se separar prematuramente, tornou-se um ser incompleto, carente de equilíbrio e desconectado da ordem cósmica.
Sua existência é marcada por uma busca incessante por completude, uma jornada que o leva a desafiar as estruturas estabelecidas por Amma.
Yurugu representa a desobediência, mas também a inquietação, a vontade de romper com o estabelecido.
Ele não é apenas o causador do caos — ele é o caos em movimento.
Sua presença no universo Dogon é essencial para explicar por que o mundo não é perfeito, por que há falhas, conflitos e rupturas.
Mas será que a existência de Yurugu é um fracasso da criação ou uma parte inevitável dela?
A tradição Dogon parece sugerir que a desordem não é um acidente, mas uma força que obriga o cosmos a se reorganizar constantemente.
Diante da desordem instaurada por Yurugu, Amma não destrói o que foi feito.
Em vez disso, responde com uma nova criação: os Nommo.
Esses seres gêmeos, muitas vezes descritos como aquáticos e andróginos, são enviados à Terra com a missão de restaurar a ordem.
Eles trazem consigo o conhecimento, a linguagem, a agricultura, a metalurgia e os rituais que conectam os humanos ao cosmos.
Os Nommo não são apenas restauradores — são transmissores de sabedoria e organizadores da vida.
Eles representam a tentativa de Amma de corrigir o desequilíbrio sem apagar sua existência.
Isso revela uma visão de mundo profundamente pragmática: o erro não é apagado, mas transformado.
A criação não é um ato único e perfeito, mas um processo contínuo de ajustes.
Os Nommo também são sacrificados e ressuscitados, um ciclo que reforça a ideia de que a ordem precisa ser constantemente renovada.
A presença deles na história Dogon levanta uma reflexão importante: será que o verdadeiro poder está em criar ou em restaurar o que foi corrompido?
A estrutura do universo, segundo os Dogon, é composta por múltiplos níveis interligados.
Amma ocupa o centro como força criadora, enquanto Yurugu representa a ruptura dessa ordem.
Os Nommo atuam como mediadores entre os mundos, garantindo que o equilíbrio seja mantido.
O universo não é estático — ele pulsa, se transforma, se adapta.
Cada nível da realidade tem suas próprias leis, mas todos estão conectados por uma lógica comum: a busca por harmonia.
Os Dogon preservam esse conhecimento por meio de rituais, máscaras, símbolos e uma tradição oral rigorosa.
A cosmologia Dogon também se destaca por sua complexidade astronômica.
Há registros de que eles conheciam detalhes sobre o sistema estelar de Sírius, incluindo a existência de uma estrela invisível a olho nu, muito antes de sua confirmação pela ciência moderna.
Isso levanta uma pergunta inevitável: como um povo sem tecnologia moderna poderia ter acesso a esse tipo de informação?
A resposta, para os Dogon, está na sabedoria transmitida pelos Nommo.
Para o observador externo, isso pode parecer improvável.
Mas para quem escuta com atenção, talvez a questão não seja “como sabiam?”, mas “o que mais ainda não sabemos?”
A história de Amma e Yurugu não termina com a criação do mundo.
Ela continua em cada ciclo de renovação, em cada ritual que busca restaurar o equilíbrio, em cada tentativa humana de compreender o universo.
Amma não é um criador distante, mas uma força que atua constantemente, corrigindo, ajustando, recriando.
Yurugu, por sua vez, continua presente como a lembrança de que a desordem é sempre uma possibilidade.
A tensão entre essas duas forças não é resolvida — ela é mantida.
E talvez seja justamente essa tensão que mantém o universo em movimento.
A tradição Dogon não oferece respostas fáceis, mas convida à reflexão.
Se a criação é um processo contínuo, então o mundo está sempre em construção.
E se a desordem é inevitável, então o verdadeiro desafio não é evitá-la, mas aprender a restaurar o equilíbrio.
Essa visão não busca impor verdades, mas propor perguntas.
E talvez, no fim das contas, seja isso que torna essa história tão poderosa: ela não fecha o pensamento, ela o abre.
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| Os Dogon afirmam que os Nommos foram enviados por Amma para restaurar a ordem após o erro de Yurugu. |
A história de Amma e Yurugu, preservada por séculos entre os Dogon, é uma das narrativas mais instigantes sobre a origem do universo.
Ela não se limita a explicar como o mundo surgiu, mas propõe uma leitura profunda sobre a natureza da existência.
Amma representa a ordem, a criação e a estrutura. Yurugu, a desordem, a incompletude e o impulso de ruptura.
Entre eles, os Nommo surgem como agentes de equilíbrio, restauradores da harmonia.
Essa tríade revela uma cosmologia que não separa o bem do mal de forma absoluta, mas reconhece a complexidade da realidade.
O universo, segundo os Dogon, não é um sistema perfeito, mas um organismo em constante adaptação.
Essa perspectiva nos convida a repensar nossas próprias ideias sobre criação, erro, equilíbrio e transformação.
Em vez de buscar respostas definitivas, talvez devêssemos aprender com os Dogon a fazer melhores perguntas.
Afinal, o que é mais importante: entender como tudo começou ou compreender como tudo continua?
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